O que escrever sobre o fim da minha jornada como ensina?

Não, este não é um texto corporativo e nem uma #publi


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Faço parte da redação e, antes disso, do processo de co-criação deste blog que você lê agora. Aliás, devo dizer que essa tem sido uma das raras experiências de ver uma proposta colaborativa ser realmente incentivada e respeitada ao longo de todo o processo, até que se desenvolvesse e alçasse plenamente seus próprios voos. Taí a terceira rodada de publicações e toda uma equipe que não me deixa mentir.


Mas o que foi fluido ao longo de todo esse projeto - compartilhar ideias, receber as prévias dos textos, dar pitacos aqui e ali - ironicamente se transformou em bloqueio total na hora de finalizar meu próprio texto. Na minha vez, na data que eu mesma escolhi, nada saía… É o famoso dito popular: casa de ferreiro, espeto de pau.


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É que, antes de ser ou estar em qualquer outra posição, sou professora.

Em contexto pandêmico.

No final de um programa intenso de formação profissional e humana.

É óbvio. Me sinto exausta.


E eu só me dei conta do óbvio ao persistir nessa tentativa de escrever.

Que tempos são esses, em que temos de defender o óbvio?, diria Brecht.


Eu mesma respondo.

São tempos em que dei conta, da melhor forma possível, de n27 demandas diferentes e simultâneas.

São tempos em que me superei, em que descobri novas habilidades, novos jeitos de fazer, novas possibilidades de existir.

Tempos em que, para manter o foco no aluno, tive de olhar para mim mesma, para minhas lacunas e medos, mas também para meus tantos potenciais, e seguir.

Seguir do jeito que dava.

Seguir do jeito que a pandemia, a falta de vacinas, a desinformação, os lutos, e todo um conjunto de resistências nos permitiram.

E é sobre isso esse texto.

E é por isso que o texto, inicialmente em terceira pessoa, virou pessoal.


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Toda vez que entro em sala de aula, sinto o mesmo frio na barriga do dia inicial.

O mesmo.

Com toda a bagagem de elementos formativos que a gente vive ao longo do programa: intensivão, cursos, diálogos formativos, planejamentos, co-investigações.

O mesmo.

Uma antiga formadora dizia que isso é ter respeito pelos alunos. Pode ser.

O que sei é que não existe rotina quando se trata de ambiente escolar e de todo o sistema que o subsidia.


Então, a primeira coisa que eu diria à Vânia do primeiro dia de aula como ensina é:

Por mais que isso soe um total absurdo hoje, acredite: você é capaz.

Muito capaz. Você vai dar conta.

Essa sensação de incerteza é natural e você vai se habituar a ela.

Você vai ter muitos “desaprendimentos” na vida em Petrolina e um deles é que incerteza é regra, não exceção. Por mais que tenham te ensinado justamente o contrário.


Não pensando em quaisquer ordens ou prioridades, a próxima coisa que me vem à mente para dizer àquela Vânia recém-chegada é:

Você vai dar conta sim. E sendo você mesma.

Como assim?


Falando baixinho.

Reorganizando mentalmente várias vezes as palavras antes de expor uma ideia em público.

Com aquelas mãos suando frio segurando o marcador de quadro-branco.

Com as letras que vão desenhando um morrinho típico das Minas Gerais por falta de coordenação motora para manter uma linha reta na lousa.

Com tudo isso - que é tão, tão pequeno - mas que na sua cabeça de hoje é um baita problemão (Spoiler: Não é).

A escola reúne crianças, jovens e adultos de todos os perfis.

Você é um deles.

Você é necessária.

Cada um dos seus estudantes precisa conhecer você.

Para cada um dos seus estudantes, a sua contribuição vai ser diferente.

Você, também, vai descobrir que precisa mais dessa interação do que imaginava.

É com eles que, de fato, você vai entender o que está fazendo ali.

Você vai sentir - e deixar - uma saudade enorme no fim das contas.

A correnteza dos movimentos todos vai quase anestesiar essa saudade em você.

Mas (re)escreva e (re)leia sua trajetória, é uma ordem.

A saudade vai fluir feito o São Francisco e vai virar lágrima e riso ao mesmo tempo.


É verdade, não minto. Viver é melhor que sonhar (esse teu sonho ainda descontextualizado, ainda opaco, que você traz na bagagem).

Vivendo, você vai aprender a sonhar junto. E vai entender a diferença que isso faz.


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Uma última coisa que lembrei de dizer à Vânia iniciante como ensina é:

Você vai encontrar muita gente para te ajudar nesse processo.

Elas são de verdade, confie. Estenda suas mãos suando frio.


Muitas dessas mãos, aliás, virão dos seus próprios alunos.

Mas também da gestão. Das redes diversas em que você vai se engajar.

Essa leitura de contexto vai emergir naturalmente. Mas quanto antes você se colocar em abertura, melhor.


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Percebi que minha dificuldade em finalizar esse texto estava justamente ligada à ideia das coisas “escritas em pedra”.

Do não-editável. Do definitivo. Das certezas.


Entendi o papel das incertezas no meu cotidiano de professora e de ensina vivendo o final do programa, mas ainda não aceitava que um registro como esse transparecesse as incertezas da jornada. Que ironia!


E ser ensina, basicamente, é isso:

Deixar-se abraçar pelas incertezas tantas.


Boas-vindas a quem chega agora à rede.

Boas-vindas a quem finaliza comigo essa jornada.

Boas-vindas ao nosso novo pacotinho de incertezas!


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