Cotidiano (in)comum - Março/2021

Atualizado: Ago 6

O dia começou. Como de costume, o despertador toca às 5h20, levanto-me, abro a janela: o sol está nascendo. Arrumo-me rapidamente e vou para a cozinha preparar o café. Enquanto a água esquenta, tiro a marmita da geladeira, coloco na mochila e aproveito para conferir se as máscaras que usarei hoje estão ali devidamente posicionadas, perto do estojo e do caderninho com as anotações da aula do dia. Vou para a parada de ônibus, sinto-me um pouco mais cansada do que o costume; apesar disso, há em mim um sentimento de felicidade, uma felicidade mansa de quem sabe que em pouco tempo pisará no chão da escola e verá na sala de aula aquelas carinhas tão sedentas de atenção e cuidado.


O ônibus passa às 6h10, entro nele e cumprimento o motorista, rosto familiar que sempre me recebe pontualmente e com um sorriso nos olhos (acho que ele sorri também com a boca, a máscara me impede de ter clareza sobre isso). No caminho, vejo o dia amanhecendo e as ruas ganhando vida. Chego, enfim, no ponto onde devo descer, na Rua do Canal, em frente à maré. Agradeço o motorista, desejo um bom dia para ele e desço.


Não há ninguém por lá ainda, mais tarde encherá de pescadores, por ora só há o sol, as águas da maré e o morro Mestre Álvaro ao fundo. Nesse momento em que observo a sintonia e beleza do encontro das águas com o Mestre Álvaro, por alguns segundos, por apenas alguns segundos, esqueço tudo o que está acontecendo. Não há pandemia, não há mortes, não há sofrimento. Ressoam em minha cabeça as palavras de Belchior: “Deus é brasileiro e anda do meu lado…”.


Legenda: Vista da maré encontrando o morro Mestre Álvaro - Bairro Grande Vitória, Vitória - ES


Caminho por uns cinco minutos e chego no portão azul e vermelho da EMEF Profª Maria Stella de Novaes. Vou para a sala dos professores para tomar mais um café antes de entrar em sala de aula. Enquanto me sirvo, ouço dois docentes que discutem o afastamento de mais um colega por suspeita de Covid, conversa que se repete quase que diariamente. Depois, subo e aguardo os alunos na porta.


Recebo cada estudante na entrada da sala, mantendo uma certa distância, é claro, e digo um “bom dia” bem animado, na tentativa de fazê-los acordar. Após todos terem chegado, pergunto como estão se sentindo naquela manhã e depois relembro com eles a importância de respeitarmos os protocolos de segurança. Eles me olham com aquela cara de “esse discurso de novo, professora? Já entendemos que temos que usar a máscara o tempo todo, não chegar perto do colega e passar álcool em gel nas mãos” (e, apesar dessas feições que me dizem tudo isso, sei que em poucos minutos chamarei a atenção de algum deles porque abaixou a máscara ou quis se aproximar do amigo para falar algo).


Há mais um assunto que preciso compartilhar com os estudantes antes de trabalharmos o conteúdo: a escola deve fechar nos próximos dias, pois a situação da Covid-19 está muito feia e apenas uma pequena parte da população já foi vacinada. Nesta semana completa um ano desde que se iniciou a quarentena no Brasil. Junto com o aniversário da pandemia, uma nova onda da doença se espalha. Não há nada certo sobre o fechamento, mas sinto que devo prepará-los para a ocasião, caso aconteça. Procuro as palavras corretas para explicar para eles porque, em tão pouco tempo, a Maria Stella fechará novamente e nós teremos que ficar em casa. Como dizer para os meus alunos que a escola, que deveria ser um espaço de segurança e acolhimento, não é segura agora?


Nesse instante, volto a sentir aquele cansaço de hoje cedo, e ele se traduz para mim: não é um cansaço apenas físico, mas também psicológico. Acho as palavras, não sei se as melhores ou as corretas, e partilho com eles a informação. Afirmo, também, que o fechamento, se acontecer, não será o fim dos estudos. Daremos um jeito, nos reinventaremos através do material impresso, do Google Sala de Aula, do Whatsapp, que seja, mas precisamos continuar estudando e nos conectando. À medida que falo, contemplo aqueles olhares que me fitam com um descontentamento genuíno e uma certa tristeza. Luto contra eles (os olhares), tentando me convencer de que eu conseguirei ensinar e estar perto dos meus alunos, mesmo com a distância.


Observo e absorvo todos os detalhes da sala de aula e dos meus pequenos (as perguntas e os comentários do Davi estão especialmente interessantes hoje!), pois já não sei mais quando voltarei a vê-los e a pisar no chão da escola, esse lugar sagrado. Repito o procedimento nas outras salas: “bom dia” animado, protocolos de segurança, conversa sobre a possibilidade de a escola fechar, conteúdo. Em todas elas, os mesmos olhares descontentes e tristes com a informação do fechamento.


O tempo passa, o relógio marca 12h e a manhã letiva chega ao fim. Almoço com um colega no refeitório e acompanhamos na tv o jornal, que relata o aumento de casos da doença e a lotação dos leitos de UTI em todo o estado do Espírito Santo. Respiro fundo. De volta ao trabalho. Vou para o portão da Maria Stella com os coordenadores para receber os estudantes do vespertino, assegurar que estão de máscara e também que fazem mesmo parte do grupo que deve frequentar a escola nesta semana. Na verdade, no período da tarde, eu deveria estar exercendo um projeto que engajasse os alunos na busca ativa e crítica pelo conhecimento, porém não há espaço para isso. No momento, todos os profissionais da instituição trabalham em prol de apenas um objetivo: garantir que ela seja um ambiente seguro para os educandos. A tarde desenrola-se, então, entre atividades diversas que me fazem andar de um lado para o outro do colégio: ajudo na organização do material impresso, ligo e recebo pais que estão com alguma questão para ser resolvida, entrego EPIs para professores e alunos. Por fim, o expediente acaba e chega a hora de ir para casa.


Caminho para a parada de ônibus, dessa vez na Rua 11 de janeiro, e observo as pessoas que transitam por lá. Alguns são trabalhadores e consumidores do comércio, outros são apenas moradores passeando pelas ruas. A cena é bonita, noto a união e a alegria da comunidade do bairro de Grande Vitória. No entanto, há algo que me incomoda profundamente: poucos usam a máscara e respeitam o distanciamento. “Será que eles não sabem que a pandemia está cada vez pior?!”, questiono-me.


Entro no ônibus. Meu corpo se encaixa na cadeira e sinto meus olhos querendo fechar. No meio do percurso, passando pelo Centro, em frente ao Palácio Anchieta, algo me desperta: ouço uma voz grossa que fala por um alto falante, parece-me algum tipo de manifestação, pois escuto também pessoas gritando. Olho pela janela, presto atenção e tento entender o teor da ocasião. Para o meu desgosto, trata-se de um grupo de manifestantes que se utiliza de palavras hostis e argumentos egoístas para protestar contra o fechamento das escolas.


Protestos e carreatas têm acontecido com frequência por aqui. A população está insatisfeita (por razões diversas e, por vezes, opostas) e tenta ser ouvida. Apesar de não ser uma cena inédita para mim, hoje ela me toca de modo diferente. Ela acaba comigo. Indago-me se aquelas pessoas entendem, mesmo que minimamente, os desafios que as escolas enfrentam no contexto pandêmico. Não é falta de vontade ou comodismo. Ficar em casa é uma medida de segurança. Segurança para todos, afinal, nós, professores e funcionários da escola, também temos o direito de viver.


Já em casa, termino o dia inquieta e descrente do mundo, com a cabeça cheia de pensamentos que se misturam e se confundem. De repente, recordo-me dos olhos da Israelly que brilham ao responder corretamente as perguntas que lhe faço. Lembro-me, também, do Estevão que, em sala de aula, mistura palhaçada e estudo, tornando para si a educação divertida. Sou tomada por um sentimento de propósito. Não posso desistir. É preciso ter esperança e coragem por eles, pelos meus alunos. Belchior tinha razão: “tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro… ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro!”. Seguimos!





127 visualizações

Posts recentes

Ver tudo