Você acredita na educação?

Eu sempre acreditei na educação e sempre acreditei no potencial que ela tem para transformação. Quando decidi começar minha carreira através de uma oportunidade que me colocaria dentro da sala de aula, foi pensando nisso. Como uma mulher negra de uma família pobre, eu tenho certeza de que tudo que eu sei e tenho hoje, é consequência do esforço que meus pais fizeram lá atrás para que eu tivesse uma educação de qualidade. E é por isso que eu luto e quero continuar lutando por uma educação que liberte, transforme e faça deste um mundo mais justo.


Hoje eu quero te contar uma experiência que eu tive em sala de aula, uma experiência que me afetou de formas que eu não estava esperando. Sou professora de Língua Portuguesa e esse ano decidi que leria o livro “O diário de Anne Frank” com meus alunos do 9º ano. O livro é um relato que narra os momentos em que Anne Frank, sua família e amigos, precisaram viver confinados em um esconderijo durante a Segunda Guerra, já que os judeus estavam sendo perseguidos e mortos pelo governo nazista alemão. Escolhi a versão em quadrinhos pois entendi que poderia ser mais atrativa. Nossa rotina era a seguinte, toda segunda-feira entrávamos na aula (pelo google meet), eu compartilhava a minha tela com o pdf do livro aberto, dois alunos se voluntariavam para ler comigo e no fim conversávamos sobre a leitura do dia. Eu fazia perguntas que guiavam nosso debate “o que chamou a atenção de vocês?”, “no que podemos e devemos focar?”, “qual o sentimento de vocês sobre tal parte?”, e assim fizemos na maioria das segundas até uma específica.


Antes das aulas, apesar de já conhecer toda a história, eu sempre lia as páginas que leríamos para conseguir preparar as perguntas e entender qual seria a dinâmica do momento. Em um desses momentos de preparação e planejamento me deparei com a parte do livro em que a Anne está vivendo o momento da sua puberdade, descobrindo seu corpo, como se sente sobre ele e como se sente sobre outros corpos. Na ocasião, em um dos relatos, Anne escreveu que sentia vontade de beijar sua amiga e contou como se sentia ao ver figuras de mulheres nuas.

Quando li essa parte eu travei na cadeira. As primeiras coisas que pensei depois de ler foram todas as possíveis consequências negativas de falar abertamente sobre sexualidade em uma sala de aula e de forma remota. Eu travei porque não estava preparada para lidar com qualquer tipo de preconceito e sei que infelizmente isso ainda é algo recorrente. Eu travei porque já havia lido algumas vezes que o mesmo livro tinha sido censurado em outras escolas por causa desse tema. Um livro em que uma menina de 13 anos fala sobre sua experiência em um dos momentos mais sombrios e tristes da história da humanidade, é censurado por causa de algumas páginas onde ela fala sobre seus sentimentos e descobertas.


Depois de pensar muito decidi adiar a leitura por uma semana, procurei algumas pessoas para conversar sobre suas experiências e entender qual seria a melhor forma de guiar essa aula e debate. Quero agradecer publicamente ao Joel e a Gabi, que também são professores da Rede Ensina Brasil e hoje atuam em escolas em Mato Grosso do Sul e no Maranhão, respectivamente, por terem me ajudado nessa. Depois disso, refleti bastante e concluí que faria dessa aula um espaço seguro. Eu não sabia se meus alunos teriam contato com o tema pela primeira, segunda ou terceira vez, mas sabia que, independentemente disso, eu queria que fosse de forma respeitosa.


Chegou o dia da aula e poucas horas antes de começar, vejo o nome “Anne Frank” nos trending topics do twitter. Quando cliquei, a primeira notícia que veio foi “O Diário de Anne Frank é alvo de boicote por pais [...]”, e eu não acreditei. Segui me preparando para a aula, nesse dia decidi que leria sozinha a história e começaria o nosso debate perguntando para os alunos como eles se sentiram com a leitura. As respostas foram “me senti um pouco estranho”, “me senti normal”, “fiquei com um pouco de vergonha” e “não acho que deveríamos estar falando disso na aula”.


Depois das respostas eu fiz questão de enfatizar que estava tudo bem com o que eles sentiram e que naquele momento não tinha certo ou errado, mas que eles eram livres para se manifestar da forma que quisessem, independentemente de se fosse à favor ou contra, mas deixei claro que a base de qualquer debate ou discussão, deveria ser o respeito. Falamos sobre puberdade, falamos sobre orientação sexual, sobre tabus e sobre religião. No fim, até o mais resistente dos meus alunos sabia que o respeito e o amor precisam ser a base de tudo que nos propomos a fazer. Eu aprendi mais do que ensinei nessa aula.


Todo esse discurso é meio óbvio, eu diria, mas eu cresci em ambientes que, de forma implícita (às vezes explícita), nos condenam por simplesmente ser quem nós somos. Por muito tempo, mesmo sem entender os motivos, eu não lutei contra isso. Hoje, eu tento, através da educação, lutar para que ninguém sinta medo ou vergonha de ser quem é e amar quem quiser. Meu maior desejo é que nossas escolas e salas de aula sejam espaço de liberdade, respeito e amor. Vamos juntas!


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